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Colchão, a passarela para as novas tendências de tecidos

A “estética divertida” é o novo motor da indústria de colchões, conectando o consumidor à felicidade e lealdade emocional

A “estética divertida” é o novo motor da indústria de colchões, conectando o consumidor à felicidade e lealdade emocional
Para as marcas, o sucesso depende de criar um ‘link de tendência’ que gere o impulso imediato de desejo de compra (‘Instman’)

Em um mundo marcado pela tensão dos acontecimentos recentes, notadamente, geopolíticos, o setor de colchões encontra seu novo motor de crescimento na criatividade dos tecidos. Esta é a visão da designer Charlene Vaz, diretora de marketing e design da BekaertDeslee para América do Norte, que aponta a reinvenção estética dos tecidos como base para criar tendências e conectar-se profundamente com o consumidor. Para ela, a palavra que move o inconformismo estético recente é “divertido”.

“À medida que nos aproximamos de 2027, a alegria e o divertido surgem não apenas como uma busca pessoal, mas como uma poderosa força motriz para os negócios. Em um mundo marcado por estresse, incertezas e sobrecarga emocional, os consumidores estão cada vez mais buscando momentos significativos de felicidade, brincadeira e 
conexão” observa.

Charlene Vaz, diretora de
marketing e design da
BekaertDeslee na América
do Norte

Pesquisas confirmam que a alegria aumenta a resiliência e a lealdade — marcas que incorporam a felicidade de forma autêntica em seus produtos, serviços e experiências constroem vínculos emocionais mais profundos e conquistam a confiança do consumidor. Brincadeira, criatividade e alegria compartilhada moldarão as expectativas dos consumidores, impulsionando a demanda por produtos que vão além da funcionalidade - que nutrem o bem-estar e despertam a imaginação.

“Olhando para o futuro, as empresas que abraçarem a alegria liderarão o caminho, — mudando a mentalidade de “o que é” para “e se?” e aproveitando novas tecnologias ao lado de necessidades humanas essenciais, como a KI (inteligência infantil) — além do poder da curiosidade e do encantamento”, enumera, acrescentando que a alegria também transformará o lar em um santuário multifuncional, onde os consumidores se voltam para dentro para praticar o ativismo do prazer, priorizando serenidade, brincadeira e conexão significativa.

Para as marcas, este é um momento de escutar profundamente, infundir humor e gentileza, e oferecer alívio criativo, projetando com emoção tanto quanto com função. Aqueles que tiverem sucesso não apenas atenderão às necessidades dos consumidores, mas definirão o ritmo da inovação e do crescimento nos próximos anos.

Há ainda uma busca simultânea por modelos estéticos bem definidos com o que o consumidor anseia, as vezes botânico, minimalista, luxuoso, ou até mesmo o insistente retrô e algo recente como o “farm house”. O encontro de estilos e a ênfase na criatividade marcam um novo ciclo de investimentos na indústria. O que é mais notável é a aceleração da transição”. Se, antes, o caminho das tendências do fashion para os móveis e, por fim, para colchões, demorava um tempo considerável, hoje o processo ocorre com muito mais rapidez”, constata.

Na verdade, esse “encurtamento” do ciclo de tendências não é coincidência: reflete mudança de mentalidade do consumidor. As pessoas estão progressivamente considerando o colchão como um objeto que se situa na mesma categoria da decoração. O investimento em estética e design por parte das empresas foi “comprado” pelo consumidor.

Como nasce uma tendência


O exemplo da americana Stearns & Foster é emblemático. Uma marca que tradicionalmente se expressava com um luxo moderado em tonalidades brancas, inovou ao introduzir um colchão supercolorido, com cores vibrantes. O resultado foi um boom no mercado, comprovando que o consumidor “adquiriu” essa estética como tendência. Nos EUA o consumidor reage e espera por estética, especialmente porque o produto é de alto valor. Existe uma expectativa em qual será o próximo link de tendência que criará o “instman” (o impacto imediato e desejo de compra) no novo produto.

 

Definir uma nova tendência é um processo de inteligência de mercado e narrativa. Charlene explica que o trabalho começa com acesso a plataformas de vanguarda, como a WGSN, o maior site de tendência do mundo, bem como relatórios da empresa McKensey e conversas frequentes sobre comportamento do consumidor. “A pesquisa de campo é igualmente vital, com visitas a lojas e perguntas diretas sobre o que está atraindo o cliente, buscando entender qual é o produto mais desejado”, destaca a designer. 

Após reunir todas as informações e dados estatísticos, é preciso “contar uma história”, que se traduz nos conceitos da coleção. Charlene conecta essas informações com o conhecimento que o cliente (fabricante) já possui e apresenta o produto como a solução para aquele conjunto de dados. A chave, segundo Charlene, é o elemento de estímulo. É quando o consumidor se depara com um produto que agrada e chama sua atenção e um impulso de desejo de compra é gerado.

“A tendência, em sua essência, atua no inconsciente do consumidor. O público está em constante contato com redes sociais e vitrines, absorvendo uma série de tendências que ficam armazenadas na mente, mesmo que de forma inconsciente. Quando chega o momento da compra, o que foi armazenado reaparece como algo familiar”, explica. “Trabalho com o cérebro dos consumidores, preciso encontrar formas de estar conectado com as informações que eles consomem,” revela. 

É dessa forma que uma tendência ganha força e importância, pois se converte em vendas e gera grande poder de compra. E para ilustrar, lembra a introdução de um padrão xadrez que havia notado nas passarelas e recebido com muita reserva por um cliente. Resultado: ao invés de uma linha, expandiu para novas linhas obtendo um alto volume de vendas. “Mostra que um novo link estético de forte aceitação se traduz em lucratividade para toda a cadeia”, confirma.

Para a expert, o papel de um designer ou consultor de tendências é, sobretudo, de conexão cultural. Charlene prova isso após visitar um cliente na Guatemala, país de grande população chapina. Suas roupas e universo são coloridos e contrastava com a oferta de colchão na cor bege, sem nenhum apelo. O que fez? Desenvolveu um tecido que honrava a cultura local, alinhado com o que as pessoas vivem. “Foi um sucesso no país, porque o design se conecta com o cliente final para encontrar as melhores soluções para ele”, ressalta.

O tempo de uma tendência
“As pessoas nos procuram porque temos um nome muito forte em tendências. E aqui (nos EUA) o cliente valoriza o fator de tendências, o que é muito gostoso, pois falamos no mesmo idioma de desenvolvimento. O trabalho de pesquisa é contínuo”, indica. Enquanto cumpre a demanda de amostras para o grupo nos EUA, a especialista já dedica seu tempo à pesquisa de campo para além de 2030.

A pergunta que se impõe é: quanto o tempo que uma tendência criada nos EUA demora para chegar ao Brasil? Para Charlene, a resposta toca em um ponto crucial: o “filtro do fabricante”. Segundo ela, no Brasil, o que predomina é a cautela. “Existe o receio de que o risco envolvido na inovação possa não se traduzir em vendas. É diferente de muitos fabricantes americanos, que são movidos pela ousadia, diferencial que impulsiona a velocidade e a aceitação de novas estéticas no mercado”, constata.

Charlene explica que as tendências se dividem em diferentes temporalidades que demandam estratégias de investimento distintas. As microtendências, por exemplo, duram ao redor de um a dois anos – comparáveis ao fast fashion. As macrotendências possuem um prazo maior de duração, como as encontradas em grifes de luxo como Chanel, Louis Vuitton, Dior etc. O ponto crucial em ambas é a compreensão aprofundada 
do consumidor.

Ela comanda uma equipe preparada e proativa. São seis designers nos EUA, quatro no México (que atende a Argentina) e quatro no Canadá, que estuda para se antecipar à necessidade do cliente, identificando a linha que será a próxima grande aposta. O objetivo final é sempre “criar o melhor produto”. Com um histórico impecável de acertos, as previsões de Charlene não são apenas uma análise: é o mapa da mina para a próxima linha de sucesso. “Todas as tendências que escrevi em Anuários anteriores aconteceram”, comprova.

 

Trabalho com o cérebro dos consumidores, preciso encontrar formas de estar conectada com as informações que eles consomem”

Charlene Vaz, designer