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O Homem das Cavernas e o Colchão

Uma reflexão sobre as escolhas de saúde, consumo e marketing em uma viagem que conecta 300 mil anos de história humana com o simples ato de se deitar para dormir 

Por Lars Andreas Müller e Rogério Soares Coelho

Sabemos que a humanidade, como conhecemos hoje, começou em algum momento entre 300 mil e 200 mil anos atrás. Isso é muito tempo e, é certo que as necessidades do Homo Sapiens eram diminutas na sua concepção: sobreviver o máximo possível. 

Mas o que realmente mudou desde então? Continuamos buscando o mesmo: proteção, alimento e descanso. 

A sobrevivência de outrora se resumia a abrigo, alimento e fuga de predadores que viam nessa criatura ou uma ameaça ou um possível alimento. Esse processo básico de sobrevivência antecede, obviamente, até mesmo esse tempo, para quem acredita na linha do Darwinismo. 

Recentemente foram encontrados em cavernas na África do Sul, resquícios de mecanismos de conforto para o repouso, datados como sendo de aproximadamente 77 mil anos atrás. Isso precede, em importante dimensão, a própria existência dos registros da sociedade dos Sumérios, que existiram cerca de 5 mil anos antes de Cristo. 

Ou seja, antes mesmo da escrita, já havia o instinto de buscar conforto. 

Tudo que se sucedeu durante a evolução do conforto para o sono ao longo dos tempos, foi sempre embasado em uso de materiais existentes em abundância, em seu tempo e na natureza — desde palha, folhas, passando mais adiante ao uso de penas, couros, aglomerados ou alternativas. Não muito distante disso surge o que atualmente conhecemos como fabricação de tecidos com fibras naturais, tecendo materiais para vários usos, desde a pescaria até roupas e coberturas para abrigos. 

A cada avanço material, o ser humano aprimorava também sua forma de repousar. 

Foi somente após o início da primeira revolução industrial (Agricultura) que materiais começaram a ser disponibilizados de maneira sistemática para usos específicos. Esse foi o grande motor para ressignificar várias frentes da sociedade como conhecemos, inclusive aquilo que se tornaria a indústria do sono. 

Foi ali que o conforto começou a ser produzido em escala e, em tempo, se tornou um produto. 

Só em meados do século 19, com a contínua evolução da metalurgia e a manipulação do aço, que começaram a ser incorporadas tecnologias mais eficientes como molas. As primeiras aventuras com espumas quimicamente formuladas datam da metade do século 20, com a evolução da indústria petroquímica estimulada pelas grandes guerras, e somente foram introduzidas em repouso incentivadas pela indústria aeroespacial. 

Mas, entre engrenagens e avanços tecnológicos, identificamos que a necessidade básica do ser humano supostamente evoluiu e foi ressignificada. Sobrevivência já não se resumia aos termos básicos como caverna, comida e segurança. 

A evolução transformou o modo de viver, mas não o motivo pelo qual vivemos. 

A CAVERNA se transformou em apartamentos e casas nas suas mais variadas formas e possibilidades, móveis e cozinhas; a COMIDA se tornou industrializada e de questionável melhor qualidade, mas com sofisticação que permite chiquérrimos restaurantes Michelin, onde jantares podem custar verdadeiras fortunas pela experiência que proporcionam. 

O tema da SEGURANÇA abraçou diversas dimensões, desde sua evolução entre armamentos, cercas ou altos muros, onde as pessoas que podem, se acastelam em uma moderna prisão privada, minimizando riscos da invasão de estranhos. 

A ressignificação, entretanto, não mudou a essência do que um ser humano busca e é guiado por suas atividades diurnas e noturnas. Buscamos caverna, comida e segurança. Esse elemento também entrou na lógica do consumo. 

A indústria do sono também evoluiu e, juntamente com novas tecnologias — algumas mais exitosas, outras mais bem intencionadas — ofertou a possibilidade de muito valor agregado neste importante elemento da saúde. Outras indústrias igualmente seguiram essa evolução, com constante inovação em suas várias formas, tanto em processos, materiais e ideias, enfim, em tudo que encontramos hoje à nossa volta. 

Em tempos mais recentes, a sofisticação de práticas e técnicas de manipulação do desejo humano, essencialmente via ferramentas de marketing em sua mais ampla dimensão, tem se mostrado um importante fator de redirecionamento e reconfiguração da hierarquia de prioridades. Ironicamente, esses mesmos elementos trouxeram uma abundante fonte de informação, nem sempre confiável, mas sabidamente enviesadas através de algoritmos para manipulação e direcionamento — de dar arrepios aos maiores estudiosos da teoria de formação de massas, como debatido pelo cientista belga Mathias Desmet. 

O marketing moderno aprendeu a moldar o que sentimos e desejamos antes mesmo de sabermos o que queremos. 

A reflexão obrigatória a se fazer é: em que medida a frente do sono tem permanecido “dormente” em sua atuação, ao tornar passiva, a importância deste elemento na saúde dos indivíduos, enquanto o desejo material por um celular se sobrepõe? 

Mas, no meio dessa avalanche de estímulos, onde ficou o essencial?
O sono foi relegado a um segundo plano. A disputa feroz entre os hormônios relacionados a esse tema (os conhecidos Cortisol e Melatonina, em contraste com a Dopamina) tem perdido a batalha por conta de estruturas de marketing mais eficientes em algumas indústrias. 

Dormir bem virou um luxo, quando deveria ser o básico. 

Em que momento fomos levados a pensar que é mais importante ter um aparelho qualquer, ou automóvel último modelo, do que assegurar a qualidade daquilo que nos permite despertar para um dia melhor e mais saudável? A resposta está no poder da Dopamina, nitidamente manifestada e trabalhada através de um eficiente constructo da vida paralela possibilitada pelas tecnologias. Em algum momento, PARECER ou APARECER se tornou mais importante do que SER. E que se dane a saúde. 

Investimos em curar, mas não em prevenir. Produzimos remédios, mas esquecemos 
do descanso. 

Citamos o quanto tem se desenvolvido a indústria farmacêutica que elaborou excelentes medicamentos, muitos isentos de impostos, de preferência de uso contínuo. A pergunta que não quer calar é: O que faz uma pessoa gastar 2/3 mil reais anuais em frascos de melatonina, enquanto um colchão melhor e de qualidade, com atributos adicionais, pode ser comprado por uma parte desse valor e ser usado por vários anos? 

A honesta verdade é que existem iniciativas muito importantes através do associativismo sendo desenvolvidas, visando trazer a luz necessária para o tema da saúde associada ao sono. Mas elas não são o suficiente. A energia necessária para um maior êxito é hercúlea, mas os passos iniciais estão sendo dados. 

Se por um lado os elementos empresariais associados ao sono melhor, e de maior valor, se beneficiariam de um “upgrade” na indústria, a bem da verdade é que o maior beneficiário — o ser humano — não está sendo educado a entender esse tema como elemento essencial da vida, saúde e longevidade com qualidade. 

Como sociedade falhamos magistralmente em levar as esferas governamentais a enxergar a eficiência econômica de um bom sono. 

Não é surpreendente que, com uma rápida pesquisa no Google, encontrem-se estudos apontando que 1 em cada 3 adultos manifesta algum tipo de distúrbio impactando negativamente o sono, originários, entre vários fatores, de: 

Estresse e ameaças externas; 

Má alimentação; 

Falta de repouso recuperador adequado. 

Ironicamente, são os mesmos três fatores que, 300 mil anos atrás, o Homem das Cavernas já sabia que precisava. 

Será que não aprendemos nada durante essa jornada? 
O mau sono é fator indutor de outros males de saúde conhecidos e cada vez mais prevalentes — como obesidade, depressão e ansiedade — e há até quem diga que há impactos na criminalidade e violência. 

Como é possível que falhemos em trazer à luz o óbvio, pois literalmente todo e qualquer ser humano dorme de uma forma ou de outra? 

Colchões de boa qualidade, largamente disponíveis, com usos funcionais, são um elemento essencial à saúde preventiva — aquilo que a nossa “Caverna” moderna deveria prover para apropriarmos a energia necessária para combater as mazelas diárias. 

Mas autoridades e lobbies preferem incentivos às indústrias farmacêuticas, em detrimento de elementos básicos de efeito preventivo mais acessíveis. 

Se tornou uma obviedade também que certas indústrias simplesmente não têm interesse na saúde das pessoas. Quantos médicos perguntam em suas consultas como o paciente está dormindo? Quantos anos têm o seu colchão? 

É notório o total desconhecimento e procura do mesmo pela grande mídia. Quando se fala em sono, se remete a tudo; menos ao item básico responsável por tal descanso: o colchão. Talvez seja fruto de uma sociedade instantânea estimulada por respostas rápidas e rasas. Temos solução pra tudo, medicamentos, psicólogos, psiquiatras e tudo hoje que de maneira conectada afeta o sono, mas e o tal do colchão? Como está? É adequado? Esta em bom estado? 

Obviamente todo negócio privado tem como premissa remunerar os seus acionistas. Mas a visão pura e simples de lucro por lucro, num setor onde o bem fornecido está intrinsicamente ligado à saúde do usuário, deve ter em mente esta responsabilidade. 

E muitas vezes, nem de perto o faz, investindo mais energia em “desfazer” aquilo que seria honesto do que procurar criar valor em seu produto. 

Basta observar o que vem ocorrendo na indústria brasileira nos últimos anos. Uma constante destruição de valor e responsabilidade com 
o consumidor. 

E nem falemos de quão largamente a sociedade falha na educação básica sobre o tema. O momento é preocupante, pois, pela primeira vez na história, os filhos têm se desenvolvido com níveis de QI inferior aos pais. A sociedade falhou na escolha de ensinar o que é importante. 

Educação, por si só, seria digna de um debate separado, mas obviamente o que aí está não levará a sociedade a melhorar. Soa uma obviedade de que deveríamos trazer à tona elementos que até mesmo um “Homem das Cavernas” já buscava há 300 mil anos. 

A atualidade nos empurra a uma vida mais sofisticada, mas também a querer mais do que sobreviver: viver na plenitude, atingindo os propósitos de vida que levam à satisfação de tudo aquilo que Maslow postulou em sua pirâmide. 

Chegamos, portanto, ao paradoxo moderno: quanto mais evoluímos, mais nos afastamos daquilo que nos sustenta. 

Lembremos que, na base da pirâmide da saúde, está o sono. O risco é que, ao se tornar uma “paisagem” — um elemento tão comum que é dado como certo —, um tema nada elementar seja tratado como algo seguro e resolvido. A verdade, no entanto, é que o sono está longe de ser um problema solucionado.

Talvez o verdadeiro progresso seja reaprender a descansar como o Homem das Cavernas — com menos ruído e mais propósito. 

 

Autores

 
Lars Andreas Müller,formado em Administração de Empresas, com MBA Executivo pela FIA-SP, atua como gestor na indústria têxtil direcionada ao setor do sono.  Rogério Soares Coelho, formado em Engenharia Química pela UFRJ, MBA em Administração pela Católica Santa Catarina e Ex-presidente da ABICOL