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Players do setor promovem um “tsunami” no mercado

Imprevisibilidade econômica tem levado à união de fabricantes em busca de rotas mais eficientes de distribuição e influência ampliada nas negociações

Imprevisibilidade econômica tem levado à união de fabricantes em busca de rotas mais eficientes de distribuição e influência ampliada nas negociações
Especialistas preveem que esse movimento continuará focado em tecnologia para aprimorar as vendas online e a personalização de produtos

Fusões e aquisições parecem ser um caminho sem volta no mundo dos colchões. As principais razões que tem impulsionado os fabricantes a estabelecerem alianças incluem o controle de mais canais de distribuição (lojas físicas e e-commerce), redução de custos operacionais, maior poder de negociação com fornecedores, entrada de marcas digitais que forçam empresas tradicionais a se adaptarem devido à preferência dos consumidores por compras online e por colchões personalizados. Todos estes condicionantes vêm agitando o mercado. No Brasil, esses tipos de associações são pouco perceptíveis. 

Esses agrupamentos, no entanto, acabam gerando consequências: menor número de players dominando o mercado, marcas pequenas com dificuldades para competir com conglomerados, padronização de produtos e, em alguns casos, pode levar a menos competição e ocasionar preços mais altos. Especialistas no assunto apontam que o setor manterá o processo de fusões nos próximos anos, principalmente, para atender demanda de tecnologia para vendas online e experiências personalizadas. Mas há outros motivos.

Charlene Vaz, diretora de marketing e design da BekaertDeslee para América do Norte, acompanha de perto o mercado norte-americano e sempre atenta aos movimentos, define o momento como desafiador. “Tem a ver com slow down (desaceleração) da economia, muitas incertezas, enfrentamento de problemáticas de política, Covid e, mais recentemente, a taxação. Daí essa corrente de unir forças. Li em alguns relatórios da WGSN anos atrás que isso iria acontecer e realmente aconteceu”, lembra, sem descartar a possibilidade de uma calmaria. “Uma certa acomodação”, imagina.

“Enquanto o mercado apresentar dúvidas, as pessoas fazem o quê? pergunta Charlene. Ela mesma responde: trabalham junto para conseguir seguir junto. “É aquela coisa de dar as mãos. Se o mercado estabiliza, aí muda de figura”, pondera. “Acredito que o mercado vai se acomodando aos poucos. Vai dar uns respiros e isso já está acontecendo, mas não são suficientes ainda para cobrir os buracos que foram feitos. Tem muita agitação para recuperar o que foi perdido. E, obviamente, sem esquecer as taxações, que estão deixando todo mundo ansioso”, comenta. “Mas acredito que encontrando mais formas de como trabalhar, as coisas vão se assentando”, almeja.

O mercado de colchões nos Estados Unidos tem se movimentado com grandes fabricantes adquirindo redes de varejo e marcas digitais como forma de ganhar escala, eficiência e controle sobre a cadeia de valor. E não é só isso: o consumidor de colchões está mais consciente da importância do sono, aberto à compra online e mais exigente quanto à personalização e sustentabilidade. A produção é impulsionada, basicamente, por Tempur Sealy, Serta Simmons e players digitais como Purple e Casper.

Em 2023, a Tempur Sealy 
anunciou a aquisição da rede de varejo Mattress Firm, uma das maiores dos EUA. O negócio foi concluído no início de 2025. Essa fusão teve como objetivo integrar produção e distribuição. Um ano antes, a Casper Sleep, após enfrentar dificuldades financeiras, foi 
adquirida pela Durational Capital Management. Além disso, a Serta Simmons Bedding passou por reestruturação e fusões internas nos últimos anos, com a intenção de consolidar marcas como Serta, Beautyrest 
e Tuft & Needle sob uma gestão mais enxuta. No final de novembro a A Somnigroup International Inc. – ex-Tempur Sealy – apresentou uma proposta para adquirir 100% da Leggett & Platt Inc. em uma operação integralmente em ações. A confirmação do negócio deve se efetivar em 2026.

O que os especialistas pensam
Analistas entendem que marcas com forte presença online e foco em saúde do sono são vistas como ativos estratégicos em um mercado cada vez mais competitivo. “Isso vai continuar crescendo”, aposta Billy Roberts, analista sênior do CoBank (com sede em Greenwood Village, Colorado, EUA), sobre o aumento na atividade de fusões e aquisições. Embora focado em alimentos e bebidas, Roberts destaca uma tendência que se aplica ao setor de colchões, que compartilha características como marca forte, distribuição ampla e apelo direto ao consumidor.

Relatório da Baker Tilly Capital, com sede em Chicago (EUA) aponta que “empresas com fluxo de caixa estável, forte presença digital e foco em sustentabilidade estão entre os alvos preferenciais de fusões e aquisições”. Esta análise se encaixa em marcas como Emma Sleep, Casper e Tuft & Needle, que têm atraído investimentos por seu modelo escalável e alinhado às práticas ESG.

“A digitalização e a inovação tecnológica continuam impulsionando fusões e aquisições, especialmente em setores como e-commerce e bens duráveis”, mostra Pesquisa de Fusões e Aquisições 2024, da KPMG. O setor de colchões, com forte migração para o e-commerce e produtos tecnológicos (colchões com sensores e ajuste de firmeza), se encaixa diretamente nessa tendência.

 

Espera-se que marcas tradicionais adquiram startups digitais e redes 
de varejo”.

Relatório de Fusões e Aquisições elaborado pela KPMG

Relatório de Fusões e Aquisições elaborado pela KPMG em 2024, indica que a consolidação continuará, com os fabricantes procurando mais escala, eficiência e controle sobre canais de distribuição. “Espera-se que marcas tradicionais adquiram startups digitais e redes de varejo, e que fundos de private equity seguirão investindo em marcas com foco em sustentabilidade e tecnologia”, prevê a KPMG. 

Estudo da McKinsey “Tendências do Varejo 2025” diz: “O consumidor quer conveniência, mas também confiança. O futuro é omnichannel”, sugerindo que marcas integrarão lojas físicas com plataformas digitais, oferecendo testes em casa, devoluções fáceis e personalização online, e que o e-commerce deve representar mais de 50% das vendas até 2030 nos EUA e cerca de 40% na Europa.

Expectativa é que as fusões continuem por mais algum tempo

Produtos com apelo ecológico e funcionalidade inteligente serão os motores do crescimento, constata o trabalho Consumer Trend 2025, da Euromonitor International, para quem deseja colchões com sensores de sono, ajuste de temperatura e utilizem materiais recicláveis. Estes ganharão espaço. O estudo alerta que marcas que não se adaptarem às exigências ESG certamente perderão competitividade.  “O sono virou um pilar de saúde. O consumidor está disposto a pagar mais por conforto e prevenção”, endossa o Future of Wellmess 2025, da Deloitte, com sede em Londres.

Movimentos na Europa
Nos últimos dois anos, o setor europeu de colchões tem passado por fusões basicamente motivadas por sustentabilidade, saúde, digitalização e expansão regional. Fundos de investimento estão ativos, e marcas tradicionais pretendem se adaptar ao novo perfil de consumo e exigências ambientais. A Comissão Europeia está vigilante quanto à concentração excessiva e práticas anticompetitivas. A Antitrust Outlook 2025, da Baker McKenzie, informa que fusões de grande porte serão mais escrutinadas e exigirá mais transparência sobre origem dos materiais e práticas comerciais.

Entre 2026 e 2030, devem ocorrer mais fusões e aquisições no setor colchoeiro europeu

Embora o setor europeu de colchões não tenha registrado fusões tão emblemáticas quanto nos Estados Unidos, há sinais de transformação e consolidação. O setor já possui nível elevado de concentração, com grandes fabricantes dominando fatias significativas do mercado em países como Alemanha, França e Reino Unido, mas apesar das adversidades econômicas e geopolíticas, o mercado europeu de fusões e aquisições dá sinais positivos: em 2025, o continente teve seu melhor ano em número de transações em mais de uma década.

Em 2023, a divisão de colchões da Recticel NV, da Bélgica, foi adquirida pelo grupo português Aquinos. A Recticel decidiu focar em materiais de isolamento e a Aquinos visava expandir sua presença na Europa Ocidental. Ainda em 2023 Diversos fabricantes regionais na Alemanha, França e Europa Central foram comprados pela Hilding Anders International AB, da Suécia, com a finalidade de fortalecer sua posição como líder europeu de colchões e camas.

Em 2024, o grupo alemão Emma comprou a EQT Partners, fundo de private equity, da Suécia. Em 2025, o grupo italiano Zucchi adquiriu a Magniflex, também da Itália. O motivo foi a sinergia entre marcas de luxo para oferecer soluções premium em sono e bem-estar. A Magniflex é conhecida por colchões ecológicos e design sofisticado. A tendência é a Europa seguir em ritmo mais lento, mas com sinais claros de concentração, com foco em marcas que investem em produtos que beneficiem saúde, idosos e sustentabilidade.

Alguns estudos indicam que o número de novas fusões e aquisições no setor colchoeiro dos EUA e Europa entre 2025 e 2030 deve ficar entre 10 e 15 novos negócios, e a possibilidade remota de chegar a pouco menos de 20. O crescimento global médio anual esperado para o período é de 4,5% em 2025 e de 4,8% em 2030. A receita global somada projetada de US$ 40 bilhões em 2025 deve atingir US$ 55 bilhões dentro de cinco anos. Já a participação do e-commerce deve avançar dos atuais 45% para 60%.

 

Fontes de pesquisa
Previsão/estatística do setor  — BedTimes Magazine
Relatório de mercado — Mordor Intelligence+1
Tendências de compra online e influência de redes sociais — Tom’s Guide+1