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Invasão de colchões chineses não encontra limite

O fluxo de importações tornou-se altamente concentrado; quase 3 em cada 4 unidades que entram no Brasil tem origem na China

O fluxo de importações tornou-se altamente concentrado; quase 3 em cada 4 unidades que entram no Brasil tem origem na China
No intervalo de duas décadas, de 2005 a 2025, a soma de colchões trazidos do país asiático ficará muito próximo de 2 milhões de peças

Vinte anos atrás a China ocupava um espaço quase invisível nas importações de colchões. A cada 15 unidades compradas lá fora, só uma vinha do outro lado do mundo. Na linguagem econômica, era um fornecedor periférico. Hoje, o cenário é outro: quase três em cada quatro importados vêm com o selo “made in China”. Em duas décadas, o país asiático multiplicou sua presença no mercado interno em mais de dez vezes – e os números mostram isso.

Mais do que redesenhar a geografia e elevar o grau de dependência, é um sinal de alerta para a indústria local. Entre 2005 e 2014, a participação, em valor, era de apenas 9,4%. Nos anos 2015-2019 subiu para 21% e de 2020 para cá simplesmente dobrou de 35,7% para 72,5% em 2025 até novembro.  Exceto França, Dinamarca e Holanda, que podem ser considerados periféricos de primeira linha, os demais países que em 2020 representavam 38,2% estão hoje reduzidos a 8,3%.

 

A abundância chinesa tem como ser medida: entre 2005 e 2025 o total acumulado atingirá a marca histórica de dois milhões de unidades. Logo no início do acompanhamento feito pelo ComexSTAT, do MDIC em 1997, o Brasil importou exatas 2.437 peças da China. Em novembro do ano passado foram 17.887 e no acumulado de onze meses de 2025 somou 133.844, volume que representa 85% do total importado. 

A China lidera com ampla vantagem as exportações globais de colchões. Estatísticas da United Nations Commodity Trade Statistics (UN Contrade) mostram que o país respondeu em 2023–2024, por cerca de 60% a 65% do valor exportado mundialmente no código HS 9404, superando com folga Polônia, México e Vietnã. Em volume físico, levantamentos consolidados da UN Comtrade indicam que a participação chinesa ultrapassa 80% do total comercializado globalmente.

 

 

O furacão chamado Rondônia
Ao colocar uma lupa sobre os principais polos importadores brasileiros, uma unidade da federação rompe o silêncio – Rondônia. Lastreada por uma lei estadual aprovada em 2005, que concede crédito presumido de até 85% do valor do ICMS gerado nas operações interestaduais para produtos vindos do exterior, o estado passou praticamente despercebido até 2023 mas no ano seguinte ingressou no grupo “top five” com volume de 15 mil unidades. Até novembro de 2025 ocupava a segunda posição com 42.373, atrás de Santa Catarine e à frente de nomes como São Paulo, Alagoas e, um pouco mais distante, Minas Gerais. 

Em onze meses de 2025, Rondônia somou US$ 2,396 milhões em compras do exterior – 53% de tudo o que foi adquirido pelo Brasil – salto de quase 3 mil por cento em relação a todo o ano de 2024. Vale registrar que em duas décadas o patamar mais alto pertencia até então a São Paulo, em 2019, com US$ 2,249 milhões. Apenas oito polos possuem fluxo contínuo de compras desses itens do exterior. Rondônia é um deles – o estado chegou com tudo.

 

Exportações ficam nas Américas
O Brasil é o 5º maior fabricante mundial de colchão e líder na América Latina, e tem exatamente nesse bloco o principal destino de suas vendas – de um total de pouco mais de 50 países com os quais costuma vender seus produtos, metade vão para América do Sul e América Central. De forma pulverizada, países europeus e africanos fazem parte da outra metade e, acreditem, até para a China o Brasil envia produtos, embora em proporção infinitamente menor ao que recebe.

Em 2024, foram exportadas 186,9 mil unidades o que gerou receitas de US$ 14,3 milhões. Em 2025, até novembro, foram embarcados 180,2 mil itens, totalizando US$ 13,6 milhões. O polo paranaense se destaca como líder de um grupo de 15 estados que habitualmente vendem no exterior, que incluem São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul como expoentes.

O escoamento utiliza 10 diferentes rotas de saída do Brasil, cinco delas no Rio Grande do Sul: Uruguaiana, Jaguarão, Santana do Livramento, Chuí e São Borja. As demais ficam em Corumbá e Ponta Porã, ambas em Mato Grosso do Sul, e Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná – todas pelo modal rodoviário. A exceção é o Porto de Santos, em São Paulo.