Menu

Eficiência sob comando digital

Sono Inteligente: Tecnologia dentro e fora do colchão

Falta de mão de obra, necessidade de redução de desperdício e melhoria da performance de mercado estão entre as motivações para investir em automação e até em robôs 

Cases da Espanha, Argentina e do Brasil mostram que este é um caminho sem volta, mas é preciso planejamento apurado e boa assessoria para fazer os investimentos certos 

 

Que a automação na indústria de colchão é uma realidade já ficou claro ao longo das reportagens desta edição do Anuário, assim como os motivos que levam empresários a aportarem altas somas em máquinas automáticas e robôs. Agora vamos mostrar cases em diferentes partes do mundo de empresas que investiram em tecnologia e os ganhos que conseguiram. 

O primeiro vem da Espanha, da cidade de Murcia, onde está localizada a Essenzia Dormire, e contraria o conceito de que a automação é mais indicada para as indústrias de produtos escaláveis e, muitas vezes, de baixo valor agregado. 

Embora produza colchões de alto padrão, a Essenzia Dormire viu na automação vantagens como redução de mão de obra (lá, a escassez e os altos salários também impactam os colchoeiros), redução de desperdícios (com olhar para sustentabilidade e economia), melhoria nos processos e ganho de produtividade e de competitividade.

Rene de Oliveira, CEO da Overseas, responsável pela implementação dos processos automatizados na Essenzia Dormire, observa que a Espanha é o nono país no ranking dos maiores produtores de colchões. “Embora sua população seja equivalente a do estado de São Paulo, a Espanha se tornou um grande exportador de colchões, atendendo a demanda de países como França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca e Noruega”, explica, acrescentando que neste contexto, empresas como a Essenzia Dormire exportam grandes volumes. “Com a produção de 300 colchões de linha alta por dia, a empresa viu na automação um diferencial competitivo. Afinal, com grande volume de SKUs (Unidade de Manutenção de Estoque), para atender uma variada linha de produtos, a empresa controla melhor todo o processo produtivo”, afirma Rene. 

Processo produtivo da Espanhola Essenzia Dormire

Outros motivos que levaram a direção da espanhola a investir em tecnologia foram a garantia de qualidade e padronização das peças, a redução de retrabalhos e de assistência, menos desperdícios (especialmente no processo de colagem), redução de resíduos e o diferencial competitivo, em função da redução de custos. “A automação também funciona como um argumento de marketing de alto convencimento, uma vez que impressiona e dá segurança aos clientes da fábrica”, pontua Rene, lembrando que a Essenzia Dormire conta com um robô na montagem dos colchões. “Neste caso, faz todo sentido trocar a mão de obra por um robô, especialmente na Europa, onde os salários são ainda mais altos que no Brasil”, explica. 

Respondendo sobre o valor de um processo robotizado, Rene esclarece que desde 2019, quando surgiram os primeiros robôs para indústrias de colchões, o preço recuou cerca de 30%. 

Nosso segundo caso vem da Argentina, da cidade de Tigre, Província de Buenos Aires, onde fica a planta fabril da BedTime, uma indústria com mais de 40 anos e que nasceu apostando em tecnologia de ponta. 

David Mayo, diretor industrial da Bedtime

David Mayo, diretor industrial, conta que a automação teve como principais objetivos melhorar a produtividade e garantir a confiabilidade nos produtos fabricados. “Os principais investimentos foram nos processos de colagem, montagem e fechamento de colchões de mola e espuma em diferentes formatos. E o ponto central foi a substituição dos adesivos de base solvente por hotmelt base água”, afirma, lembrando que na época escolheu a Elektroteks, da Turquia, por fatores como a qualidade da tecnologia, o relacionamento com os agentes da empresa no país, serviços de pós-venda e as possibilidades de financiamento.

Conforme o diretor da BedTime, entre o planejamento e a implementação da linha passaram quase dois anos. “O principal desafio foi fazer a configuração sem afetar a produção, em uma planta com espaços reduzidos”. 

Em relação aos ganhos com a automação, David afirma que não é fácil medir, mas reconhece redução no consumo de adesivos, maior confiabilidade na produção diária e menos fadiga dos funcionários.

Diante disso, já está nos planos automatizar processos no corte de espuma. Porém, ainda não pensa em incorporar robôs por conta dos custos, mas não descarta a compra no futuro. 

Cases do Brasil
Por aqui, embora a automação esteja em estágio menos avançado que na Europa, já temos exemplos importantes de indústrias que apostam na tecnologia como aliada na produção de colchões. Entre elas, está a Sonos Colchões, de Vitória da Conquista, no estado da Bahia. 

Fundada em 2011, com DNA catarinense e foco em tecnologia e inovação, é uma das primeiras fábricas do setor no Brasil a contar com um sistema de montagem de colchões totalmente automatizado com o uso de IoT (Internet das Coisas) e equipamentos com tecnologia 4.0. Além de melhorar a rapidez, o novo modelo opera com ganho de 50% de eficiência em relação a uma indústria tradicional, assim como diminui o consumo de adesivo em cerca de 30% e garante a padronização dos colchões produzidos.

Francis Schneider, CEO da Sonos Colchões 

Francis Schneider, CEO da Sonos Colchões, destaca que os principais motivos para o investimento em equipamentos automatizados foram: aumentar a produtividade, padronizar os processos, melhorar a qualidade de vida do trabalhador e garantir uniformidade na produção dos colchões. “A incorporação de uma linha de produção automatizada, com IoT, garante a melhora dos controles de produção, com informações em tempo real. Com um projeto bem pensado, a melhoria do fluxo de movimentação dos materiais gera agilidade nos processos e menos esforço físico dos colaboradores envolvidos, além de um significativo ganho de produtividade”, afirma, adiantando que os equipamentos automatizados são a base para projetos futuros de implementação de APS (Advanced Planning and Scheduling) e IA.

A Sonos Colchões foi uma das primeiras indústrias de colchões do brasil a investir em automação

Em relação à implementação do processo na Sonos, Francis pontua que as principais dificuldades não foram na montagem das máquinas e sim em organizar os espaços e os processos anteriores para que os produtos intermediários chegassem à linha de produção sequenciados e aptos a serem utilizados no momento correto. 

Outro ponto relevante é a mudança nos postos de trabalho com a incorporação de novas máquinas. E, neste aspecto, o treinamento da equipe foi muito importante para que assimilassem as novas funções. “A regulagem fina das máquinas também é um ponto a ser observado, haja visto uma mudança significativa na tecnologia das máquinas, agora com sensores e controles permitindo o gerenciamento através de IoT”, acrescenta, lembrando que a incorporação da linha automatizada melhorou a padronização dos processos de montagem, colagem, costura e embalagem do colchão, garantindo uniformidade dos produtos que vão para o consumidor final. “Um exemplo, ao garantir que todos os colchões recebam a mesma quantidade de cola, evitamos desperdícios, além de assegurar que todos os colchões estejam colados de forma igual. O ganho geral medido é de 56% na produtividade, redução de 40% na mão de obra direta e 30% no consumo de cola”, explica.

Processo produtivo da Sonos Colchões

Para estar na vanguarda industrial de colchoes, a Sonos contratou o serviço de consultoria da Overseas Service, que também foi responsável pela venda dos equipamentos da linha automatizada e pela instalação, pois além de técnicos internacionais, possui time próprio de técnicos no Brasil, especialistas em mecânica, elétrica e eletrônica.

Rene de Oliveira, CEO da Overseas

“Existe falta de mão de obra para a indústria no mundo, o que impulsiona a automatização, sem contar que os custos de maquinários para automação reduziram muito nos últimos anos”, ressalta Rene de Oliveira, CEO da Overseas, acrescentando que esse pioneirismo da Sonos segue uma tendência mundial e que, o início das mudanças ocorreu em novembro de 2023 e o tempo normal para concluir a automação gira em torno de sete meses, sem contar o tempo de preparação da fábrica. 

A maior dificuldade é o treinamento das pessoas – fazer com que entendam que é necessário abandonar o hábito de fazer as coisas como sempre fizeram. Outro ponto é ter ordem no chão de fábrica e o 5S é fundamental. “A limpeza na área industrial é crucial por causa da sensibilidade dos sensores, e outro detalhe que merece cuidado é com os componentes que alimentam a máquina, que precisam estar com suas dimensões exatas para evitar eventuais percalços na condução do processo. 

Francis pontua que a escolha do fabricante turco Mert Makina, teve várias razões. “Primeiro, eles têm uma equipe de representantes qualificada no Brasil e preparada para oferecer as melhores soluções aos fabricantes de colchão. Depois, porque trabalham com componentes eletrônicos de ponta e com máquinas robustas, além da tradição de anos no segmento de automação de colchão”. O CEO da Sonos enaltece a segurança da uma empresa de décadas, que revende para mais de 100 países, e que tem um time de assistência técnica 24h por dia, 7 dias por semana e que não deixa o fabricante desassistido em nenhum momento.

Respondendo se pretende fazer novos investimentos em tecnologia, Francis se mostra preocupado em melhorar cada vez mais as condições de trabalho dos colaboradores e aumentar a eficiência produtiva da fábrica. “Sem automação não tem como fazer isso, então, na minha visão, automatizar processos está ligado a sobrevivência do negócio”, pontua, acrescentando que melhorias dos processos produtivos, diminuição de risco trabalhista e aumento da capacidade produtiva são considerados em seus planos de investimento.  “A robotização, embora já esteja mais acessível, ainda é um investimento caro e com baixo retorno. Então, no momento estamos focados em automatizar outros processos”, finaliza.

Outra brasileira que tem aportado recursos na automação é a Umaflex, com matriz na cidade paranaense de Umuarama (de onde deriva sua marca), e plantas industriais em Conchal (SP) e na cidade pernambucana de Escada. 

Processo produtivo da Umaflex

Com mais de três décadas no mercado, a Umaflex tem como diferencial o investimento contínuo em tecnologia e inovação. “O avanço da automação nas fábricas foi uma decisão estratégica, motivada pelo desejo de elevar a eficiência produtiva, padronizar a qualidade e aumentar a competitividade frente às novas exigências do mercado”, afirma o diretor Edson Xavier, lembrando que o processo de automação teve início em 2018, com a implantação dos primeiros equipamentos na unidade em Conchal (SP) e, posteriormente, estendido à unidade do Nordeste. “O investimento contemplou áreas fundamentais, como espumação de alta pressão, corte de espuma, colagem, montagem de molejos, laminação e estocagem automatizada, integrando diferentes etapas da produção em um fluxo mais preciso e inteligente”, explica.

Edson Xavier, diretor da Umaflex 

Entre as principais dificuldades enfrentadas na implantação, Edson destaca a adaptação dos processos internos, o treinamento das equipes e a integração entre tecnologia e operação humana. O que, na sua opinião, são desafios naturais em um projeto de transformação industrial dessa magnitude.

Entre os ganhos obtidos, o diretor da Umaflex relaciona o aumento significativo da produtividade, a redução de desperdícios de matéria-prima, melhor aproveitamento de tempo de produção e padronização de qualidade em níveis ainda mais elevados. “Além disso, a automação trouxe mais segurança e ergonomia para os colaboradores, reforçando o cuidado da Umaflex com as pessoas”, destaca, pontuando que a escolha da Elektroteks para fazer automação da montagem de colchões se deu em 2022. “Levamos em consideração a tecnologia de ponta, confiabilidade dos equipamentos, robustez das soluções e o suporte técnico especializado, que garantem segurança em todas as etapas de implementação”, reconhece.

Diante dos resultados já conquistados, a Umaflex tem planos de expansão em automação e estuda a introdução de sistemas robotizados para áreas de movimentação e embalagem, consolidando seu papel como uma das indústrias mais modernas do setor de colchões no Brasil. “Mais do que atualização tecnológica, esse investimento reflete a essência da Umaflex: unir inovação e excelência para entregar conforto com qualidade superior”, conclui Edson Xavier.

A indústria que se move sozinha
Em relação à robotização no Brasil, em comparação com a Europa, onde há fábricas de colchões (como a Essenza Dormire) que utilizam robôs para alimentar a linha de montagem, Rene de Oliveira, acredita que não vai demorar para se desenvolver. “Possivelmente nos próximos 2 anos, motivada pela falta de mão de obra e pelo menor custo de aquisição de robôs que são utilizados para cortar materiais, costurar, manusear peças e embalar colchões, bem como câmeras e sensores usados para inspecionar a qualidade dos produtos e garantir a precisão das máquinas.

Especialista em produtividade e automação de equipamentos, Rene chama a atenção daqueles que pretendem seguir o caminho da automação industrial de colchões, dizendo que o primeiro passo para uma mudança de processos é não ter pressa para automatizar. “Antes, precisa olhar para dentro do chão de fábrica, ver e analisar os processos, promover um rearranjo, entender a organização para depois pensar em automação e treinamento das pessoas – caso contrário, vai comprar automatização errada”, ressalta.

 

Etapas da automação 

O processo convencional de produção de colchão consiste na espumação, corte das espumas, ação de bordadeiras e de costureiras, que fazem as faixas e tampos. Na colagem é preciso uma máquina e dois colaboradores posicionados um de cada lado para circular o colchão e fazer a fixação. Já no modelo automático, todos os subcomponentes ficam separados e aglutinados em carrinhos, prontos para entrar na montagem. O responsável recebe a “receita” do colchão no computador, com o número de unidades a serem produzidas: se de espuma ou de mola, com ou sem pillow top – ou com dois pillow top – o tipo de embalagem, o tipo de cola, e as faixas. Depois, é apertar o botão da ordem de produção, incluindo a costura.

Ao sair do outro lado da máquina, o colchão passa pelo controle de qualidade e em seguida segue para a máquina de embalagem que também é automática, cuja forma tanto pode ser enrolada ou o modelo standard. O passo seguinte é empilhar os colchões, igualmente de forma automática. Nesse estágio entra um colaborador que pega as pilhas e as leva para a área de expedição.

Outro avanço é que todas as informações relativas ao processo de produção são geradas em tempo real e ficam disponíveis e armazenadas no sistema ERP da fábrica. São dados como estrutura de produto, número de unidades produzidas, consumo de material, motivos de parada, entre outros. No sistema convencional no máximo, colocado em planilhas de Excel.